Infâncias

A exuberância da cultura popular brasileira, especialmente a sua música, é bem conhecida fora de suas fronteiras. Mas a maioria das discussões acerca desta cultura mal chega à superfície. A cultura popular brasileira contém influências do Oriente Médio, África Ocidental e dos povos indígenas da América do Sul. Além disso, devido à forma como o Brasil se desenvolveu historicamente, existem grandes áreas que viveram em diferentes graus de isolamento durante séculos. Nessas áreas, as tradições populares cresceram de forma única, às vezes muito perto de suas origens e em outras vezes tão divergentes a ponto de serem quase irreconhecíveis se comparadas às tradições com origens semelhantes.

As escritoras Gabriela Romeu e Marlene Peret e os fotógrafos Hélio Filho e Samuel Macedo viajam há anos pelo Brasil documentando as maneiras que as crianças brincam nos cinco cantos do país. O resultado deste trabalho, o projeto Infâncias, produziu uma exposição em grande escala e vários documentários curta-metragem, bem como um site para o qual eu traduzi alguns dos materiais. Gabriela entrou em contato comigo para traduzir as legendas para Meninos e Reis e as inscrições para vários festivais de cinema onde ela queria apresentar o filme.

Os clientes muitas vezes questionam por que eu pergunto quem lerá a tradução e para que ela se aplicará. Como isso poderia influenciar uma tradução? No caso de Infâncias, era crucial saber que a tradução seria lida por um público geral e por um júri de festival de cinema. Eu precisava encontrar traduções para algumas expressões regionais muito obscuras, algumas delas com raízes na Península Ibérica Medieval, que deveriam ser rapidamente compreendidas e acessíveis. Incluir notas de rodapé ou traduções acadêmicas dos termos estava fora de cogitação! A minha tarefa era transmitir um significado geral, de uma forma que captasse a atenção do público e desse ao júri a impressão de um documentário bem produzido.

Texto Fonte

Infâncias

O Infâncias anda por trilhas que desembocam em diversos quintais do Brasil – e, em breve, da América Latina e da África lusófona.

Nessas andanças, já incursionamos na mata para “caçar” Maria Fulozinha (um ser encantado), rodamos pião na unha do dedão e brincamos de reisado com os meninos e as meninas do Cariri cearense, um lugar onde criança é também chamada de “cabrinha”.

Embarcamos nas águas do rio Xingu, onde visitamos quintais da periferia de Altamira, de vilas de pescadores e dos povos indígenas Xikrin, Araweté e Asuriní. Na região do Médio Xingu, por onde estamos fazendo diversas incursões, as crianças têm nos contado sobre a vida em quintais que se espalham por rios e florestas e, que, mais do que nunca, estão em transformação por conta da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Entre outras rotas, demos uma parada no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Os meninos de lá nos mostraram como juntam restos do cotidianos, colados com coisas da natureza, para construir seus brinquedos – e seu universo. Então, pegamos carona em muitos carrinhos e giramos nas cantigas de roda.

Ainda em terras mineiras, avançamos até a região do rio São Francisco, o Velho Chico, por onde navegamos em canoas de meninos e meninas que contaram dos seres que habitam aquelas águas, como o Caboclo D’Água e a Mãe D’Água.

Nas bandas do Sul do país, andamos pelos morros e ladeiras atrás dos meninos e seus carretões, um brinquedo que faz sucesso há muitas gerações de crianças. Por lá, as meninas também nos convidaram para visitar suas casinhas, onde nos serviram muitos bolinhos de terra e sucos de chuva.

Tradução

Childhoods

Childhoods takes trails that lead to many yards all across Brazil—and soon, Latin America and Lusophone Africa.

On these travels, we have gone on forest excursions to “hunt” Maria Fulozinha (an enchanted being), spun tops on our thumbnail and celebrated the reisado with the girls and boys of Ceará’s Cariri region, a place where kids are often affectionately referred to as cabinhas (little goats).

We embarked on the waters of the Xingu River, where we visited yards in several places: on the outskirts of Altamira, in fishing villages, and with the Xikrin, Araweté and Asuriní indigenous peoples. In the mid-Xingu region, where we have gone on several excursions, children have told us about life in the yards that dot the area between rivers and forests and that, more than ever, are in transformation due to construction of the Belo Monte hydroelectric dam.

Among other routes, we stopped in Jequitinhonha Valley, in the state of Minas Gerais. Kids there showed us how they gather everyday bits and pieces, gluing them together with things from nature to build their toys—and create their own world. Then we hitched a ride on many tiny cars and spun around in song circles.

While still in Minas Gerais, we moved on to the region of the São Francisco River or “Old Chico” as they call him, where we navigated in canoes with boys and girls who told us about the beings that inhabit those waters, such as Caboclo D’Água and Mãe D’Água.

In the southern reaches of the country, we travelled the hills and stairs with kids and their little trucks, toys that have been a great success for generations of children. There, the girls also invited us to visit their doll houses, where they served us many mud pies and rain tea.